Histórias de um tesouro perdido
Martha Medeiros
Me sinto como se tivesse encontrado petróleo no quintal. Dentro de armários e baús, resgatei antiguidades sem preço no mercado. Vou contar para vocês minha aventura como arqueóloga do meu passado.
Numa dessas tardes quentes, me dei conta de que o ano estava acabando e que seria prudente entrar em 2007 com menos bagagem, então resolvi fazer uma faxina na papelada. Achei que era hora de rastrear aquelas coisas que a gente enfia em qualquer canto com a promessa de "um dia eu vejo o que fazer com isso". Pois o dia chegou. Abri gavetas e dei adeus a documentos amarelados, notas fiscais de antes de Cristo e medalhas de honra ao mérito que eu já nem lembrava o que tinha feito para merecer. No entanto, entre tanta coisa inútil, surgiram as cartas. Antes de serem jogadas fora, resolvi dar uma espiada.
Pois bem, foi como se eu tivesse garimpado pedras preciosas, me descobri milionária. Primeiro, fiz uma viagem no tempo ao reler as cartas que minha mãe enviava ao Chile, quando lá eu morava. Palavras bem-humoradas, espirituosas, ternas - e junto do envelope ela colocava desenhos para minha filha, sua única neta na época, que ainda não sabia ler. Desenhos que contavam sobre sua saudade, tudo muito hilário e comovente. Avós bacanas são as esmeraldas de toda criança.
Encontrei cartas de dois grandes amigos que seguem meus irmãos até hoje. Katia vivia em Londres, mas nos sentíamos vizinhas através das intermináveis linhas que trocávamos. Eu podia sentir o perfume dos parques e o barulho das ruas, tão bem ela descrevia seu cenário estrangeiro. Marcelo, por sua vez, morava em São Paulo, e do mesmo jeito estava presente em minha vida como se vivesse do outro lado da porta. Tínhamos que idade? Só lembro que éramos muito jovens e cheios de futuro e entusiasmo. Tudo mudou, nada mudou: seguimos hoje com outra idade, um futuro menos infinito, mas com o mesmíssimo entusiasmo.
Encontrei cartas de ex-namorados que registravam um amor para sempre, tudo isso numa era pré-Renato Russo, quando ainda não havíamos sido avisados de que o pra sempre sempre acaba. E cartas de amigas com quem troco e-mails diários atualmente, mas de quem eu não lembrava mais a letra, aquela letra colegial descrevendo assuntos colegiais, tudo ao mesmo tempo bobo e intenso. Hoje continuamos assombradas com a vida, mas não colocamos mais nada no papel. Eu ainda tive a sorte de fazer dos meus devaneios uma profissão, mas os devaneios delas viraram minhas relíquias particulares.
Temos tanta coisa para lembrar que acabamos retendo apenas fragmentos do que foi vivido. Já as cartas guardadas reconstroem nosso caminho passo a passo, contam exatamente como chegamos até aqui. Salve a tecnologia, mas considero uma bênção ter aproveitado o apogeu da celulose, quando não existia o verbo deletar e a gente não rasgava nada, a espera de um dia "ver o que fazer com isso". Não vou fazer nada, as cartas voltaram pro baú: o passado é que provou ter feito muito por mim.
Domingo, 17 de dezembro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.